Esqueci de como eu desenhava, e da forma que minhas pinturas não faziam arte, arte que quase sou eu todo hoje, o quanto mudei. Perdi até as recordações de quando não sabia amarrar meus cadarços, por isso que mamãe comprava sapatos de pregas. Perdi a noção de quem eu sou se não tiver ninguém. Tinha perdido a memória desses dias tristes, também tinha desaprendido da dor que dói quando sai pelo olho e vai molhando pra baixo, até o vento bater e secar. Tinha esquecido dos horrores que nunca vivi, mas que incrivelmente consigo sentir e sofrer por todos eles, dos horrores dos livros que parecem com os meus, não na história, mas na intensidade.
Sou preso dentro de mim e vivo como pessoa pobre, sou encurralado nos limites e pressionado à felicidade com o que tenho, comendo meus calos não me satisfarei, porque não retiro nada de mim. Hoje a noite vai me inundar, o frio não vou sentir, só as notas solitárias de um piano dentro de um salão, ressoando sozinho. O incomodo do cômodo vazio vai tomar dimensões inexistentes até hoje de manhã. Esqueço de me curar, sei que vai cicatrizar quando houver chance, enquanto isso o ferimento aberto não parará de expelir secreção. Vou sangrar tanta água, desidratar tanto pessimismo, evaporar no primeiro sopro que me soprarem, até eu chegar em alguém, que se torne Alguém.

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