Queria te escrever, talvez te transcrever pra algum lugar que não fosse teu corpo, uma coisa, um cordão, algo que pudesse andar comigo pro ai e não me fizesse sentir tua falta. Quis escrever também por motivos temporais, por acaso, pelo tempo que já durou o dia de hoje, pelo tempo que passou enquanto eu dormia e teus braços não estavam sobre minhas costas. Quis te escrever por vários motivos, porque temos pouco tempo, talvez o próximo meteoro caia aqui, talvez porque a gente humano faz das nossas relações decadências totais, porque não acredito em ti, tão pouco em mim. Eu quis escrever e isso não é nada, porque tudo o que eu digo não diz nada, porque eu nunca sei dizer nada diretamente. Rodo, rodo, rodo, caio na cadência do samba e nunca digo nada, tenho esse problema comigo. Mas é o que eu digo, nada falo, nada digo. Sendo um analfabeto que sou, ao menos vejo que o meu dia já vai acabar, antes que meteoros caiam sobre nós, antes que o calendário se renove, antes do sono chegar, venho só dizer nada com nada pra alguém que eu bem queria que estivesse com os braços sobre os meus, onde nossos braços ao menos se enxergassem, onde eu pudesse e tu também.

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